Muitas pessoas acreditam que a autoestima depende apenas de força de vontade ou pensamento positivo. Mas a forma como cada um se vê é construída ao longo de muitos anos, a partir de relações, experiências e expectativas. A imagem que você tem de si mesmo não surgiu por acaso. Ela foi sendo moldada pelo olhar dos outros e pelas mensagens que você recebeu sobre quem deveria ser.
Desde cedo aprendemos a nos reconhecer a partir do que é valorizado ao nosso redor. Algumas características são elogiadas, outras são criticadas ou ignoradas. Aos poucos, vamos tentando nos aproximar daquilo que parece garantir amor, aceitação e reconhecimento. Criamos uma espécie de modelo interno de pessoa ideal. Alguém que, acreditamos, seria mais digno de ser amado e respeitado.
O problema é que esse modelo costuma ser exagerado e pouco humano. Ele não leva em conta limites, fragilidades e contradições, que fazem parte de qualquer pessoa. Em vez disso, ele funciona como um padrão rígido. A pessoa passa a se observar o tempo todo, como se estivesse sendo avaliada por um público invisível. Surge um diálogo interno marcado por críticas constantes. Eu deveria ter feito melhor. Eu não posso falhar. Eu não posso demonstrar fraqueza.
Essa cobrança excessiva gera ansiedade, medo de errar e dificuldade de aproveitar as próprias conquistas. Mesmo quando algo dá certo, a satisfação dura pouco, porque a meta ideal sempre se desloca. O resultado é uma sensação permanente de dívida consigo mesmo. A pessoa sente que está sempre devendo, sempre aquém, sempre atrasada em relação ao que deveria ser.
A pressão social reforça esse processo. Modelos de sucesso profissional, padrões de beleza, estilos de vida perfeitos nas redes sociais funcionam como espelhos distorcidos. Eles fazem parecer que existe um jeito certo de viver, amar, trabalhar e ser feliz. Quem não consegue se encaixar totalmente nesses moldes tende a sentir vergonha e inadequação.
Na clínica psicanalítica, trabalhamos para que a pessoa possa reconhecer de onde vem essa imagem ideal e como ela se tornou tão exigente. Ao colocar em palavras suas histórias, relações e frustrações, o paciente começa a perceber que essa cobrança não é uma verdade absoluta. Ela é resultado de uma construção que pode ser questionada.
Esse processo não tem como objetivo eliminar o desejo de crescer ou melhorar. A diferença é que, aos poucos, a pessoa deixa de se orientar apenas por um ideal impossível e passa a considerar seus próprios limites, desejos e valores. Isso abre espaço para uma autoestima mais realista e estável, menos dependente da comparação constante.
Quando alguém consegue reduzir a força dessa imagem ideal rígida, a relação consigo mesmo se torna mais leve. Erros deixam de ser provas de fracasso pessoal e passam a ser parte da experiência humana. A vida deixa de ser uma corrida interminável e pode ganhar mais sentido.
No próximo texto, falo sobre como a terapia ajuda a diminuir o sofrimento causado pela distância entre quem você acha que deveria ser e quem você realmente é. Como a psicanálise ajuda a lidar com a baixa autoestima e a pressão social

Deixe um comentário