Vivemos em tempos em que o trabalho deixou de ser apenas uma forma de sustento e passou a ocupar o lugar de medida de valor pessoal. Não é à toa que a síndrome de burnout, um esgotamento profundo que mistura cansaço físico, emocional e mental, vem crescendo de forma alarmante.

Segundo dados recentes do INSS, os afastamentos do trabalho por burnout aumentaram 136% nos últimos cinco anos. Hoje, cerca de 30% da força de trabalho no Brasil sofre com essa condição. Isso significa que, em quase todas as empresas, há pessoas adoecendo em silêncio, tentando dar conta de demandas que parecem nunca ter fim.

Mas por que chegamos a esse ponto?

A psicanálise nos ajuda a olhar para além dos sintomas e a compreender o sofrimento que está por trás dessa exaustão. A lógica de produtividade que impera hoje promete que, se você se esforçar o suficiente, será reconhecido, valorizado, bem-sucedido. O problema é que esse ideal se transforma facilmente numa armadilha. Por mais que a pessoa se dedique, ela sente que nunca é suficiente.

É aí que nasce o sofrimento psíquico: a pessoa começa a se afastar de si mesma, de seus desejos, de seus limites. Trabalha cada vez mais, se cobra cada vez mais, tentando alcançar algo que nunca chega. E quando percebe, está esgotada emocionalmente drenada, sem energia, sem prazer, com dificuldade até de se levantar da cama.

O burnout, nesse sentido, não é apenas um cansaço comum. É o corpo e a mente gritando por uma pausa, por um espaço onde seja possível se reconectar com o que realmente importa. É um colapso que revela o excesso de exigência e a falta de escuta tanto por parte da sociedade quanto da própria pessoa.

A psicanálise propõe justamente isso: escutar. Criar um espaço em que o sujeito possa se ouvir, reconhecer seus limites, suas angústias, seus desejos esquecidos no meio da correria. Não se trata de encontrar uma “cura rápida”, mas de começar a reconstruir um caminho mais autentico , menos pautado por expectativas externas e mais enraizado no que faz sentido para si.

Falar de burnout, portanto, é falar da nossa cultura, das formas como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. É também um convite à reflexão: até que ponto estamos vivendo de acordo com o que queremos, ou apenas respondendo a pressões que nos afastam de nós mesmos?

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